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BodyTalk, experimentando pela primeira vez

Conheça o texto da jornalista Mariana Kalil sobre a sua primeira sessão de BodyTalk

 

Meu corpo falou

Levantei da cama da terapeuta desnorteada. Trocamos algumas palavras finais, me despedi e peguei o elevador meio sem rumo. Já saía pela porta principal do prédio quando o porteiro chamou avisando que ela ligava lá de cima informando que eu havia esquecido meus óculos escuros na sala. Peguei o elevador de volta até o quinto andar. Ela me esperava na porta.

Não te preocupa, não é só contigo que isso acontece. Tem gente que esquece o sapato – sorriu, como quem diz “há casos mais graves”, e me entregando óculos.

Eu havia acabado de me submeter pela primeira vez a uma sessão de BodyTalk.


O BodyTalk é uma terapia alternativa baseada na escuta do corpo e consiste na crença de que ele sabe como curar a si mesmo. Parte do princípio da medicina tradicional chinesa de que o ser humano tem a capacidade inata de equilibrar corpo e mente. Não oferece nenhum diagnóstico ou prescrição, apenas sessões de “religação” para reestabelecer os canais de comunicação, contribuindo para a volta do bom desempenho do organismo. Ao longo dos anos, desde a gestação, recebemos influências externas, criação e educação que contribuem para nos afastar da essência que somos quando nascemos. O BodyTalk nada mais é do que a chance de voltar a ela.


Como é a sabedoria inata do corpo que guarda todo o registro histórico do que foi desalinhando ao longo dos anos, é ela também que conhece o caminho a fazer de volta para a cura. A técnica é usada para tratar diversos problemas de saúde – de dor no joelho a Mal de Parkinson, de uma simples alergia a câncer – e pode ser combinada a tratamentos convencionais, visto que não é invasiva. As sessões se atêm à escuta do corpo por meio do contato da terapeuta com o punho do paciente.

Apesar de ser bastante procurado para tratar questões de saúde física, geralmente depois que o paciente já peregrinou por consultórios e passou pelas abordagens tradicionais de tratamento sem encontrar solução para o sintoma, o BodyTalk também é útil para os problemas de ordem psicológica e emocional. Os relatos de pacientes submetidos à técnica e o impacto das histórias narradas boca a boca respaldam o crescimento do método que já tem sido utilizado em unidades de saúde no Brasil.


Como toda abordagem terapêutica, começa com a anamnese, uma entrevista em que o paciente descreve seu histórico de saúde e explica a razão de estar ali. A minha era de pura busca por mais autoconhecimento. Passada uma hora de conversa em que a terapeuta explicou todo o conceito e príncípios do BodyTalk, deitei na maca. Relaxei o corpo, soltei os ombros, pés, tornozelos, pescoço, cabeça. Me entreguei àquele momento. Ela depositou algumas gotinhas de um óleo essencial de lavanda na minha testa e na região do peito próxima ao coração. Segurou meu pulso, deu algumas batidinhas nele e, após alguns segundos, avisou que meu corpo havia dado permissão para começar a sessão.


Durante os 50 minutos que ficamos ali, intercalou perguntas com momentos de silêncio. O que foi vindo à tona durante todo aquele tempo mexeu com meus sentimentos mais profundos – muitos que eu nem sabia existir, outros que há anos gritavam fundo no interior da minha alma e da minha essência. Percebi que, pela primeira vez na vida, meu corpo tinha a oportunidade de falar sobre tudo aquilo que o incomodava nos nossos 42 anos de conviência e numa linguagem comum a nós dois. Não era pouca coisa.


Um baú de sentimentos acabava de ser aberto e começava a ser revirado. Medos, julgamentos, autoestima, dificuldades de expressão, necessidade de autoproteção, desencantos, lamentos. Viajei intensamente até o epicentro da minha natureza e percebi o quanto a criação e a educação recebidas e as circunstâncias e acontecimentos da vida haviam colaborado para construir uma pessoa mais distante de quem eu sou e desejo ser de fato – pessoal e profissionalmente.


A sessão foi encerrada com a técnica chamada implementação: toques sutis no topo da cabeça e na altura do coração: o toque na cabeça é para ativar o cérebro para que ele refaça os links e o toque no coração é para manter essas reconexões ativas. No BodyTalk, a necessidade ou não de uma nova sessão e o intervalo entre uma e outra – caso haja necessidade – é determinado pelo próprio corpo. Não há, portanto, como saber previamente o tempo de tratamento, nem a frequência com que as sessões acontecerão. A minha ficou marcada para dali 15 dias. Meu corpo ansiava por continuar seu dialogo comigo.


Coloquei o óculos de sol e saí do prédio até o estacionamento onde havia deixado o carro. Abri a porta, sentei e fiquei alguns minutos em silêncio, revivendo tudo aquilo e fitando o nada. Não sabia para que lado ir. Peguei a direção do shopping, precisava comprar um presente. Não lembro o caminho que fiz ao certo, recordo apenas dos sons dos automóveis e das buzinas. No shopping, circulei a esmo pelos corredores, feito zumbi. Sentei em um café, pedi um Carioca duplo e dois brigadeiros. Comi e bebi sem perceber. Levantei, voltei para o carro e vim para casa. Esqueci de comprar o presente.


Um sono incontrolável tomou conta de mim. Não resisti e mandei uma mensagem via WhatsApp para a terapeuta. “E o sono que me deu?”, escrevi. “Normal. É o corpo pedindo para ficar em stand by enquanto processa tudo”, ela respondeu. Respeitei a vontade dele e fui para o quarto. Deitei na cama e adormeci. Acordei no meio da noite com uma azia horrorosa queimando a boca do estômago, uma dor muito, muito forte. Meu corpo continuava gritando.


Deitei de barriga para cima, com um travesseiro embaixo dos joelhos e fiquei ali respirando fundo e pedindo para que ele se acalmasse. Havíamos estabelecido uma conexão maravilhosa e prometi jamais deixar que as coisas voltassem a chegar a tamanha desordem. Então chorei. Chorei muito. Caí em prantos. Cansada de chorar, adormeci para só acordar às 12h do dia seguinte. Abri os olhos e me percebi em posição fetal. Metaforicamente, quem sabe, para um segundo nascimento.


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